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O MORCEGUISMOS é um espaço inteiramente dedicado aos morcegos e pretende ser um veículo de divulgação e sensibilização. Neste espaço cabe a divulgação de projectos em curso ou concluídos, notícias, e actividades diversas.

Para além disso pretende-se que contribua para uma aproximação do público a este grupo faunístico, e que este público tome parte no aumento do conhecimento sobre morcegos em Portugal, nomeadamente através da informação sobre abrigos de que tenham conhecimento.

No futuro pretende-se ainda criar uma linha de apoio a qualquer assunto relacionado com morcegos, como seja o socorro de morcegos encontrados feridos ou a perturbação de abrigos, entre outros.

Espera-se desta forma dar um contributo importante para a conservação das espécies de morcegos portuguesas.
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30 de abril de 2010

Tese de mestrado: "Morcegos e parques Eólicos"

Recentemente defendi a minha tese de mestrado com o título "Morcegos e Parques Eólicos: relação entre o uso do espaço e a mortalidade, avaliacão de metodologias, e influência de factores ambientais e ecológicos sobre a mortalidade".

Mais do que discutir a dimensão da mortalidade ou o potencial impacto destes projectos, pretende ser um manual com algumas indicações interessantes para todos os que têm desenvolvido trabalho nesta área.

(carregue na imagem para aceder ao documento)

Resumo
Actualmente assiste-se a uma aposta crescente em energia eólica sendo que, em muitos casos, os estudos de monitorização e acompanhamento destes projecto têm revelado mortalidade de morcegos. Este trabalho pretende avaliar a eficácia dos métodos geralmente utilizados na previsão dos impactes destes projectos, bem como compreender a forma como algumas variáveis influenciam a mortalidade, e como esta pode depender da ecologia de determinadas espécies.

O estudo decorreu no Parque Eólico de Candal-Coelheira, localizado no litoral norte de Portugal, entre Março e Outubro de 2007; o Parque engloba 20 aerogeradores, Determinou-se a utilização do espaço com detectores de ultra-sons em 20 pontos de amostragem, e a mortalidade num raio de 50 metros em redor de cada aerogerador. Sempre que possível os trabalhos realizaram-se semanalmente e as amostragens de utilização do espaço decorreram na noite anterior à prospecção de cadáveres. A análise estatística permitiu avaliar a relação entre as variáveis meteorológicas e a actividade e mortalidade. A mortalidade total foi estimada utilizando duas fórmulas, tendo sido necessário avaliar a eficiência de detecção dos observadores bem com a taxa de remoção de cadáveres.

Identificou-se uma relação entre a actividade e a mortalidade, em ambos os casos as espécies Nyctalus leisleri e as do género Pipistrellus foram as mais representativas. Os maiores valores de actividade e mortalidade registaram-se entre Agosto e Outubro. A actividade e a mortalidade revelaram uma correlação significativa com as variáveis meteorológicas velocidade do vento, temperatura e humidade relativa, sendo que a mortalidade parece ainda estar relacionada com os ventos SE. Os resultados indicam que as condições de visibilidade influenciam a eficiência de detecção, enquanto os testes de remoção não revelaram diferenças na utilização de ratos ou morcegos. A estimativa de mortalidade revelou diferenças entre as fórmulas utilizadas, sendo a fórmula de Arnett (2005) mais robusta.

27 de março de 2010

Infraestruturas e mortalidade de fauna

Passou recentemente no programa Biosfera da RTP2 uma interessante reportagem sobre o impacto de várias infraestrutras nos níveis de mortalidade da fauna silvestre. O Projecto MOVE, da Unidade de Biologia da Conservação da Universidade de Évora, foi o mote para esta peça, mas falou-se também de aerogeradores e linhas eléctricas.

Como não podia deixar de ser os morcegos marcaram presença, e os resultados preliminares do Projecto MOVE indicam que a mortalidade de morcegos por atropelamento pode ser uma importante ameaça para as populações.




Parabéns a todos os interveniente pelos excelentes contributos!

25 de maio de 2009

Effectiveness of Changing Wind Turbine Cut-in Speed to Reduce Bat Fatalities at Wind Facilities

Depois de em 2008 a BWEC ter iniciado uma experiência controlada para testar o efeito da cessação do funcionamento dos aerogeradores durante o período de actividade de morcegos na sua mortalidade (ver aqui), surgem agora os primeiros resultados. Publicado em Abril, este primeiro relatório (disponível aqui) sugere que esta medida pode resultar numa redução significativa da mortalidade de morcegos em parques eólicos, alertando no entanto para a necessidade de continuar a testar esta medida.
De acordo com os resultados obtidos, a aplicação desta medida poderá conduzir a uma redução de 53% a 87% da mortalidade, sendo que a definição de um limite de velocidade de vento abaixo da qual os aerogeradores param de funcionar de 5 m/s ou 6,5 m/s, parece ter pouca influência na redução da mortalidade. Esta medida resultaria, para o período considerado (26 de Julho a 11 de Outubro) numa redução na produção de 3%, no caso de um limite de 5 m/s, e 11%, no caso de um limite de 6,5 m/s, a que corresponderia uma redução global de 0,3% e 1% respectivamente. Em termos económicos, para as empresas que exploram os parques eólicos, haverá outros factores a ter em conta, mas numa primeira análise poderá conseguir-se uma redução muito significativa da mortalidade, com baixos custos para o promotor. Uma medida de minimização a ser encarada de uma forma mais séria num futuro próximo.

14 de abril de 2009

Pode a energia eólica ser amiga dos morcegos?

Num post anterior demos destaque a uma experiência conduzida pela BWEC cujo objectivo é testar o efeito da suspensão do funcionamento dos aerogeradores em noites de vento baixo, particularmente no final do Verão e início de Outono. Embora o estudo ainda não tenha sidopublicado, os primeiros resultados sugerem uma redução da mortalidade entre os 56 e os 90%, com um custo para a produção de apenas 1 a 2%.

Paralelamente a esta medida, Edward Arnett (BWEC) está a testar um dispositivo constituídopor 16 colunas que emitem ultra-sons, interferindo com o sistema de ecolocalização dos morcegos, o que, teoricamente, obrigará os morcegos a mudarem o curso do seu voo, afastando-se dos aerogeradores.

A ler:
Can Wind Power Be Wildlife Friendly
Wind energy finds fix for exploding bats

2 de fevereiro de 2009

Síndroma do Nariz-Branco (II)

Nos últimos dias as notícias sobre o Síndroma do Nariz-Branco têm chegado em catadupa, e os números avançados são avassaladores. Dia a dia vão surgindo informações de um maior número de colónias afectadas, e o fenómeno, que no ano passado tinha sido identificado em apenas dois estados Norte Americanos, está agora a alastrar-se.

Apesar das baixas temperaturas que se fazem sentir o número de casos de morcegos a voarem, mesmo à luz do dia, é cada vez maior, bem como o número de cadáveres encontrados. Com uma mortalidade tão elevada, as preocupações começam agora a voltar-se para as pragas de insectos que, ao confirmar-se uma redução significativa de indivíduos nas colónias de morcegos locais, poderão causar sérios estragos no Verão, não só porque alguns destes insectos são transmissores de doenças, mas principalmente por serem pragas agrícolas, o que poderá causar sérios problemas ao nível da produção de alimentos.

A causa desta mortalidade ainda não é totalmente compreendida, e entre os cientistas existe um sentimento generalizado de impotência, uma vez que não têm como combater ou prevenir o que não conhecem. A gravidade deste fenómeno faz com que mereça destaque em duas das principais newsletter da área, a Bat Conservation Times e a Bat e-Bulletin da Bat Conservation Trust, e apesar de não ter sido diagnosticado nenhum caso deste Síndroma fora dos Estados Unidos, a Bat Conservation Trust disponibiliza um guia para especialistas e espeleólogos, que dá indicações sobre os sinais a que se deve estar atento bem como as precauções a ter, o guia pode ser descarregado aqui.

Resta-nos esperar que os cientistas a trabalhar neste fenómeno consigam encontrar uma solução o mais rapidamente possível.



Outras Leituras


- Bats in the News ~ WNS Spreads
- White-nose Syndrome
- Mystery Illness Kills Thousands Of Bats In The Northeast
- Bat plague fallout: More bugs, fewer crops?
- Biologists probe bat plague mystery
- White nose syndrome now threatening Pennsylvania bats

8 de janeiro de 2009

Síndroma do Nariz-Branco (I)

(fonte: http://www.vtfishandwildlife.com/Detail.cfm?Agency__ID=1423)

A Agência dos Recursos Naturais de Vermont (USA) lançou um aviso sobre a possibilidade dos cidadãos observarem uma actividade de morcegos anormal, mesmo durante o dia e apesar das baixas temperaturas que se fazem sentir.

Já no último Inverno se tinha verificado uma situação idêntica, e este comportamento deve-se ao síndroma do nariz-branco, que tem afectado morcegos em hibernação por todo o estado de Vermont. Os morcegos enfermos despertam da hibernação e abandonas as grutas e minhas na busca de alimento, acabando por procurar abrigo em residências, edifícios e outras estruturas, num esforço de sobreviver ao frio.

Como resultado os cidadãos que residem próximos de abrigos de morcegos estão a observar níveis de actividade e mortalidade pouco comuns nesta época. De acordo com os responsáveis do Departamento de Pesca & Vida Selvagem, este fenómeno está a ocorrer mais cedo do que o ano anterior, o que poderá indicar que as populações de morcegos estão cada vez mais comprometidas pelo síndroma do nariz-branco.

Para melhor compreender a dimensão desta doença o departamento criou um formulário on-line, e uma linha telefónica, onde os cidadãos podem reportar morcegos encontrados mortos ou moribundos, assim como observações de morcegos durante o dia.

10 de dezembro de 2008

Turbinas eólicas inteligentes para proteger morcegos?

Investigadores espanhóis ultimam turbinas eólicas inteligentes para proteger as aves

Investigadores espanhóis do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e da Fundação Migres estão a ultimar um dispositivo que será capaz de detectar a presença de aves e a sua trajectória para suspender as pás das torres eólicas e evitar a colisão e morte dos animais, noticia hoje o “El Mundo” online.

A notícia integral pode ser consultada no Público, e a notícia original no El Mundo.

Talvez esta possa ser uma medida de minimização a considerar também para os morcegos, cuja mortalidade em parques eólicos é significativamente superior à registada para aves. No entanto a notícia refere um raio de detecção de 750 m para aves de grande porte, fica a dúvida se o sistema também será eficiente para animais bastante mais pequenos como os morcegos.

Lanço ainda a questão, estarão as empresas que exploram os parques eólicos dispostas a parar a produção cada vez que uma ave (ou morcego) se aproxima de um aerogerador?

27 de outubro de 2008

Experiência controlada testa o efeito da paragem de aerogeradores na mortalidade de morcegos

Uma notícia publicada no RenewableEnergyWorld.com no dia 22 de Outubro com o título Important Wildlife Work Underway at Iberdrola Wind Farm on Former Coal Mine, despertou a atenção do Morceguismos. A notícia pode ser lida na íntegra aqui.

A Bat Conservation Internaional (BCI), numa parceria com Iberdrola, conduziu, através do Bats and Wind Energy Cooperative (BWEC), uma experiência controlada em que aerogeradores previamente seleccionados foram parados em condições de vento e em períodos nos quais os morcegos parecem estar mais vulneráveis. Esta iniciativa representa o primeiro esforço para compreender o efeito da paragem de aerogeradores na diminuição da mortalidade de morcegos.

Desta notícia destaco uma frase proferida por Ed Arnett (investigador principal da BCI), porque traduz o que também a mim me tem atraído para estudar (modestamente) esta temática "What excites me as a scientist is that this is a very applied problem. We need to develop renewable energy resources, and we would like to develop those responsibly".

Chamo ainda a atenção para uma questão deixada em aberto, apesar destas medidas poderem ser parte da solução, muito mais há a fazer.

O Morceguismos fica a aguardar com expectativa os resultados desta experiência, lançando desde já o desafio a todas as partes para que comecem a pensar nesta solução como uma medida de minimização para o futuro.

29 de agosto de 2008

Barotrauma (II)

Depois de ter lido o artigo em causa aqui ficam algumas observações!

Um artigo recentemente publicado na Current Biology com o título Barotrauma is a significant cause of bat fatalities at wind turbines suscitou-me uma grande curiosidade.

Em traços gerais este artigo sugere que a mortalidade de morcegos em parques eólicos se deve, na maioria dos casos, ao fenómeno do Barotrauma e que o contacto directo com as pás dos aerogeradores só ocorreria em metade das mortes registadas. Esta última ideia leva-me à primeira questão/observação.

1) Como foi avaliada a existência de contacto directo com as pás? Foi inferida através do tipo de ferimentos evidenciados pelos cadáveres? Como se pode afirmar que nos casos em que a causa de morte foi o Barotrauma não houve anteriormente contacto com as pás?

Mais à frente pode ler-se que as maiores diferenças de pressão ocorrem nas pontas das pás, e que esta diferença de pressão aumenta com a velocidade na ponta da pá, sugerindo que na velocidade máxima esta diferença de pressão pode chegar aos 5-10kPa. Apesar de não se saber que diferença de pressão pode causar o tipo de hemorragias internas observadas, diferenças tão baixas como 4,4kPa são letais para o Rattus norvegicus (Ratazana-castanha).

2) Para que as pás atinjam a velocidade máxima, provocando as diferenças de pressão sugeridas, é necessário que a velocidade do vento seja bastante elevada. Acontece que a actividade de morcegos reduz significativamente com velocidades de vento altas, e a maior mortalidade de morcegos ocorre com velocidades baixas (Kunz et al., 2007), resultado que também tem vindo a ser confirmado por investigadores portugueses. Desta forma seria indispensável verificar as diferenças de pressão para velocidades de rotação das pás bastante inferiores, de forma a confirmar se estas continuam a ser suficientes para conduzir ao Barotrauma. Se para velocidades máximas as diferenças de pressão estão entre os 5 e os 10kPa, é de esperar que para velocidades significativamente inferiores esta diferença seja também menor. Ficaria abaixo dos 4,4kPa do R. norvegicus?

3) Num outro estudo publicado no início deste ano (Horn et al., 2008) os autores utilizaram câmaras de infravermelhos térmicos para observarem o comportamento dos morcegos. Algumas das imagens publicadas mostram morcegos a investigarem pás em movimento, a perseguirem as pontas das pás (os autores sugerem que neste caso poderão também ser apanhados nos vórtices), e a evitarem as pás em movimento, sem que se verifique a ocorrência de mortalidade. Um outro conjunto de vídeos mostra morcegos a serem atingidos pelas pás.

(retirado de: http://www.bu.edu/cecb/wind/video/)

Estudos realizados em Portugal também têm demonstrado que muitos morcegos não apresentam ferimentos externos, e a possibilidade das diferenças de pressão serem a causa de morte efectiva já foram também levantadas. À luz dos diferentes estudos surge então uma nova hipótese.

Poderá a mortalidade de morcegos em parques eólicos ser uma combinação de dois factores? Por um lado tudo indica que de facto as colisões ocorrem, por outro a existência de hemorragias internas parece apontar para a possibilidade da causa de morte ser a diferença de pressão. Poderão as colisões deixar os morcegos inconscientes e ao entrarem em queda livre ficarem sujeitos a uma diferença de pressão que resulte na sua morte por lesões internas? Para espécies de dimensão reduzida como as espécies de morcegos que têm sido encontradas mortas em parques eólicos, uma queda livre de uma altura entre 45-135m deverá ser suficiente para provocar lesões internas por diferenças de pressão.

26 de agosto de 2008

Barotrauma (I)

Público 26 de Agosto de 2008

Os morcegos têm motivos para temer as turbinas eólicas. Um estudo científico mostra que o movimento das pás causa uma diminuição da pressão atmosférica, fazendo rebentar os vasos sanguíneos dos pulmões destes mamíferos.

Diário de Notícias 26 de Agosto de 2008

Estudo.
Há um número significativo de morcegos que morrem junto aos parques eólicos. A causa raramente é uma colisão, já que estes animais têm um sistema eficaz de ecolocalização. Investigadores canadianos explicaram agora o que está na origem do mistério.

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Ainda não tive oportunidade de ler o artigo que esteve na origem da notícia em causa, mas desde já dois pontos que me chamaram a atenção:

1) Na notícia pode ler-se "
A causa raramente é uma colisão, já que estes animais têm um sistema eficaz de ecolocalização". O sistema é de facto eficaz, mas não é infalível, se tivermos em conta que a ponta de uma pá dos aerogeradores pode atingir velocidades de cerca de 200 km/h, a sua detecção por um morcego torna-se uma tarefa de dificuldade acrescentada, já que os ultrasons se dissipam rapidamente no ar e por isso o raio de detecção é reduzido (dependendo das espécies e das frequências que utilizam poderá ser maior ou menor).

2) De facto muitos dos morcegos encontrados não apresentam ferimentos externos, e a hipótese das diferenças de pressão parece plausível. Contudo um outro estudo recente que utilizou câmaras de infra-vermelhos para avaliar o comportamento de morcegos em parques eólicos, permitiu verificar a existência de colisões.

Uma hipótese é que a mortalidade se dê por uma combinação de dois episódios, colisão e diferença de pressão em queda livre. Ou seja, após a colisão os morcegos poderão ficar atordoados, ou mesmo inconsientes, e ao perderem a capacidade de voo precipitam-se em queda livre, ficando sujeitos a diferenças de pressão que poderão provocar lesões internas graves que conduzam à sua morte.

Depois de ler o artigo voltarei a este assunto.